A escassez de motoristas profissionais no mercado não foi resolvida, nem mesmo em 2025. Em algumas regiões, o problema é ainda mais acentuado, uma vez que muitos profissionais optaram por trabalhar no estrangeiro ou mudar de setor. Perante esta realidade, as empresas começaram a contratar novos motoristas antes de concluírem toda a documentação necessária, sendo os requisitos pendentes tratados internamente, de acordo com as necessidades de cada organização.
O relatório anual da Eurowag sobre o mercado do transporte rodoviário revela como as empresas da Chéquia, Eslováquia, Polónia, Hungria, Roménia, Espanha e Portugal estão a lidar com este desafio.
Recrutamento e formação próprios
Atualmente, algumas empresas de transporte seguem processos bem definidos: contratam motoristas mais jovens ou com menos experiência, atribuem-lhes cargas de trabalho mais leves e vão integrando-os, de forma gradual, na condução de veículos de maior dimensão. Trata-se de um processo mais lento, mas que resulta numa maior retenção de talento.
Um exemplo disso é a empresa polaca Elmex, que enfrenta há vários anos, de forma proativa, a escassez de motoristas, inicialmente através do recrutamento de profissionais da Ucrânia e, mais tarde, de países asiáticos. A Elmex desenvolveu um programa internacional com agência de recrutamento própria e centros de formação em várias partes do mundo, preparando motoristas para trabalhar na Polónia, tanto para a própria empresa como para outros operadores.
A empresa eslovaca TOPNAD também planeia recrutar motoristas provenientes de países fora da União Europeia. Em contrapartida, a empresa checa Diplo considera que existe um número suficiente de motoristas qualificados no mercado, mas que estes permanecem onde encontram boas condições de trabalho. “Não fazemos recrutamento agressivo. Quem entra, normalmente fica. Procuramos criar um ambiente humano e previsível, sem surpresas constantes”, afirma o cofundador Michal Bubeník. “Desde o início que temos uma política clara sobre a forma como tratamos os nossos colaboradores e, por isso, praticamente não enfrentamos problemas de escassez de motoristas.” Bubeník tem experiência como motorista e conhece bem as exigências da profissão.
Outra transportadora checa, a Multitrans CZ, aposta numa abordagem individualizada a cada colaborador e no trabalho em equipa, garantindo que todos compreendem as razões por detrás das decisões da empresa, que não se baseia exclusivamente na resposta a encomendas. A Multitrans CZ reconhece que a antiga vantagem da profissão (salários significativamente acima da média) já não corresponde à realidade atual e, por isso, investe na melhoria das condições de trabalho e da frota.
A empresa espanhola Barquín y Otxoa identifica as exigências de tempo associadas à profissão como um dos principais problemas, uma vez que muitos motoristas já não estão dispostos a passar dias inteiros na estrada, longe das suas famílias. Nesse sentido, ajustou as condições de trabalho para que 90% das rotas permitam aos motoristas dormir em casa. Embora o setor alimentar, no qual opera, exija trabalho aos fins de semana e feriados, a empresa procura manter horários claros e previsíveis. Já a empresa romena Bipmobile aposta num conjunto dinâmico de benefícios para os motoristas.
Na Hungria, a Domino Trans decidiu enfrentar a situação desafiante do mercado de trabalho através de um programa interno de desenvolvimento de talento, apoiado pelo Fundo Nacional de Emprego (OFA). O programa destina-se a jovens com carta de condução da categoria B que ainda não definiram o seu percurso profissional. A formação permite uma entrada gradual na carreira de motorista, incluindo tarefas com viaturas de distribuição durante o período de estudos e a preparação para a obtenção das cartas de condução das categorias C e E. No final, a Domino Trans oferece um contrato de trabalho de dois anos, com possibilidade de prolongamento.
Telemática como ferramenta de melhoria
Em simultâneo, os métodos de avaliação dos motoristas estão a evoluir. Já não se monitoriza apenas a localização dos veículos, mas também o estilo de condução, a utilização do controlo de cruzeiro, dos travões e o consumo de combustível. Estes dados permitem gerar avaliações mensais e, sempre que um motorista apresenta resultados abaixo do esperado, é encaminhado para formação específica. Este processo contribui para a redução do consumo de combustível e do desgaste dos veículos.
Por exemplo, a empresa polaca Elmex utiliza há 15 anos o sistema Marcos TMS da Eurowag, que apoia a monitorização de pagamentos, a avaliação da rentabilidade das operações e os processos operacionais, resultando na redução de custos e no aumento da eficiência.
Outra empresa polaca, a RP-TRANS, utiliza o módulo de telemática GBOx da Eurowag para o planeamento de transportes. Esta ferramenta alerta os motoristas para atrasos e atualiza a hora estimada de chegada em tempo real, tendo em conta fatores como as condições das estradas e os tempos de trabalho dos condutores. O objetivo é otimizar rotas e garantir percursos mais curtos e económicos.
A LOGIUS também recorre à telemática para apoiar os motoristas na melhoria do estilo de condução e no cumprimento das expectativas dos clientes. A empresa realiza análises em parceria com especialistas em ESG, cujos resultados servem tanto para melhorar os processos internos como para assegurar uma comunicação clara e transparente com os parceiros de negócio.
Na empresa portuguesa TRANSMARSIL, a monitorização da frota através de telemática e a utilização de tacógrafos digitais fazem parte da operação diária. A empresa demonstra interesse na aplicação de inteligência artificial ao planeamento de rotas e à análise de custos, estando atualmente a preparar a sua implementação. Os dados de despesas provenientes dos cartões de combustível da Eurowag constituem uma base sólida para o desenvolvimento destes modelos.
A empresa eslovaca TOPNAD desenvolveu o seu próprio software de gestão de transportes e utiliza inteligência artificial para planear rotas mais eficientes, otimizando também a utilização dos camiões nas viagens de regresso. As ferramentas digitais permitem ainda obter uma visão detalhada da atividade individual dos motoristas, registando dados de consumo, tempos de marcha lenta e desempenho, sem necessidade de intervenção manual. O sistema gera automaticamente relatórios mensais que podem ser analisados por veículo, rota ou cliente.
Porque faz sentido do ponto de vista comercial?
Uma equipa mais estável e qualificada traduz-se em menos atrasos e menos danos, permitindo também demonstrar aos clientes que a empresa opera de forma segura e com menor consumo. Em alguns países, estes fatores já são considerados em concursos públicos. A escassez de motoristas e de despachantes tem um impacto negativo nos resultados das empresas de transporte. Na Polónia, por exemplo, a taxa de vagas por preencher no setor do transporte, expedição e logística atingiu no ano passado um máximo histórico, situando-se 44% acima da média nacional de todos os setores.
“Isto é um sinal claro de que a escassez de mão de obra neste setor se está a tornar um desafio cada vez mais sério. Até 2026, as empresas terão de garantir que são percecionadas como empregadoras atrativas, o que implica não só a oferta de benefícios, mas sobretudo remunerações competitivas, condições seguras de trabalho e descanso, bem como ferramentas eficazes de comunicação e reporting”, afirma Radoslaw Tatarski, responsável da Eurowag na Polónia, no Market Report para 2026.
Miroslav Novák, diretor da Eurowag para os mercados checo e eslovaco, partilha desta visão: “No final de 2024, faltavam quase meio milhão de motoristas em toda a União Europeia, e o setor do transporte na Chéquia foi igualmente afetado. O envelhecimento da força de trabalho e a diminuição do interesse das gerações mais jovens continuam a contribuir para a escassez de profissionais qualificados. Para compensar, as empresas estão a apostar cada vez mais em soluções digitais. Os sistemas de gestão de transportes automatizam o planeamento de viagens e rotas, enquanto as ferramentas de telemática monitorizam o comportamento dos motoristas, reduzem a fadiga e promovem condições de trabalho mais seguras. Em conjunto com a modernização da frota e uma digitalização mais abrangente, estas inovações estão a tornar a profissão mais atrativa para novos profissionais”, explica.
A falta de motoristas continua a ser o principal problema operacional no transporte de mercadorias e estima-se que a Europa enfrente, até 2026, um défice de até 400 mil motoristas. Esta escassez aumenta a pressão salarial, eleva os custos operacionais e limita a expansão da capacidade. Torna-se, por isso, ainda mais importante tornar as ofertas de emprego mais atrativas e ajustadas às novas gerações, mais recetivas à automação e às novas tecnologias.
A ligação ao Market Report
O relatório para 2026 demonstra que a solução é semelhante na Chéquia, na Europa Central e no sul da Europa: a combinação entre gestão de pessoas e tecnologia. Não se trata de uma ação pontual, mas de uma abordagem de longo prazo para reter motoristas e operar de forma mais eficiente. Este deverá ser o foco principal das empresas de transporte, uma vez que a pressão sobre os preços e a exigência de desempenho continuarão, apesar dos desafios que o setor enfrenta.
